Vida ao Ar Livre – Charlotte Mason

natureza

Refeições no Quintal

Pessoas que vivem no campo sabem muito bem o valor do ar fresco, e seus filhos vivem ao ar livre, com intervalos dentro de casa apenas para dormir e para comer. Sobre esse último ponto, mesmo as pessoas que vivem no campo não fazem pleno uso das suas oportunidades. Em dias belos, quando está quente o suficiente para sair sem agasalhos, por que não chá e café da manhã, tudo, exceto um jantar quente, serem servidos no quintal? Porque nós somos uma geração exausta, que perde sua força, assim como um repolho perde o vigor; e cada hora gasta ao ar livre é um claro ganho, contribuindo para o aumento do poder cerebral e do vigor físico, e da própria longevidade. Aqueles que sabem o que é sentir a pele fervente e o cérebro pulsante sendo deliciosamente aliviados pelo fresco toque do ar, estão inclinados a estabelecer uma nova regra de vida:

Nunca esteja dentro de casa quando você pode perfeitamente estar fora dela.

Além disso, o ganho de uma ou duas horas ao ar livre precisa ser considerado: refeições feitas no quintal são geralmente alegres, e não há nada como a felicidade para converter carne e bebida em sangue e tecidos saudáveis. Durante todo o tempo, também, as crianças estão armazenando memórias de uma infância feliz. Daqui cinquenta anos, elas se lembrarão das sombras dos ramos das árvores formando desenhos sobre a toalha da mesa; e da luz do sol, do riso das crianças, do zumbido das abelhas, e do perfume das flores que eram postas nos vasos após as refeições.

 

Para Quem Mora em Cidades e Periferias

Mas apenas as pessoas que vivem, por assim dizer, em seu próprio jardim, podem ter a prática de dar chá aos seus filhos fora de casa. Para o resto de nós, e a maioria de nós, que vivemos nas cidades ou nas periferias, isso é acrescentado a uma questão mais ampla: Quanto tempo ao ar livre as crianças devem ter diariamente? E como é possível garantir isso a elas?

Nesses dias de extraordinária pressão educacional e social, talvez o primeiro dever de uma mãe para com seus filhos seja garantir-lhes um tempo de crescimento tranquilo, seis anos completos de uma acolhedora vida passiva e, a parte acordada desses anos, gasta principalmente ao ar livre.

E isso não só para ganho em saúde corporal: corpo e alma, coração e mente, são alimentados com sua comida apropriada quando as crianças são deixadas à vontade para viver sem conflitos e estímulos em meio às alegres influências que as inclinam a serem boas.

 

Possibilidades de um Dia ao Ar Livre

Tomei a decisão, diz uma mãe judiciosa, de mandar meus filhos para fora de casa, se o clima permitir, por uma hora no inverno e duas horas por dia nos meses de verão. Isso é ótimo; mas não é suficiente. Em primeiro lugar, não os mande; se houver qualquer possibilidade, leve-os; pois, embora as crianças devam ser essencialmente deixadas à vontade, há muito a ser feito e muito a ser evitado durante estas longas horas ao ar livre. E deveriam ser realmente longas horas. Não duas, mas quatro, cinco, ou seis horas, seriam ideais para cada dia belo e suportável, de abril a outubro.

Impossível! Diz a mãe exausta que não enxerga em seu caminho a possibilidade de dar a seus filhos mais do que uma hora diária pelas calçadas das praças da vizinhança de Londres. Deixe-me repetir que estou me aventurando a sugerir não aquilo que é praticável em qualquer lar, mas o que me parece ser absolutamente melhor para as crianças, e isso crendo que as mães operam maravilhas uma vez que estejam convencidas de que maravilhas lhes são exigidas. Uma viagem de vinte minutos de trem ou ônibus, e uma cesta com o almoço tornarão um dia no campo possível para a maioria dos habitantes de cidades; e se é possível em um dia, por que não em muitos, e ainda em todos os dias oportunos?

Supondo que as tenhamos obtido, o que deve ser feito com essas horas douradas, de modo que cada uma seja prazerosa? Elas devem ser gastas por meio de algum método ou a mãe ficará esgotada e as crianças entediadas. Há muito a ser realizado nesta grande fração do dia das crianças. Elas devem permanecer com um temperamento alegre durante todo o tempo ou perderão parte do fortalecimento e frescor mantidos à disposição delas pelo ar abençoado.

Elas devem ser deixadas em paz, deixadas a si mesmas por algum tempo, para assimilarem o que puderem da beleza da terra e do céu; pois dos males da educação moderna, poucos são piores do que este: o constante falatório de seus responsáveis não deixa à pobre criança um momento de tempo, nem um centímetro de espaço sequer, para que ela possa se admirar de algo — e crescer.

Ao mesmo tempo, aqui está, para a mãe, a oportunidade de treinar a visão e a audição da criança e plantar sementes de veracidade em sua alma aberta, as quais deverão germinar, florescer e dar frutos, sem sua ajuda ou conhecimento posteriores. Então, há muito a ser obtido ao empoleirar-se em uma árvore ou aninhar-se em uma urze, mas os músculos se desenvolvem por meios mais ativos, e uma ou duas horas devem ser dedicadas a brincadeiras vigorosas; e, por último, e verdadeiramente último, uma ou duas lições devem ser aplicadas.

 

Nada de Livros de Histórias

Vamos supor que a mãe e os filhos chegaram a um lugar arejado ao ar livre, onde parece sempre dia. Em primeiro lugar, não é de sua responsabilidade entreter os pequenos: não deve haver livros de histórias nem contos, deve haver o mínimo de conversa possível, e isso por alguns propósitos. Quem pensa divertir as crianças com contos ou conversas em um circo ou uma pantomima? E aqui, não há infinitamente mais sendo exibido para o divertimento deles? Nossa sábia mãe, assim que chega, primeiro manda as crianças libertarem seus espíritos em uma corrida selvagem, com gritos, piruetas, e qualquer extravagância que vier a suas jovens cabeças. Não há distinção entre grande e pequeno; os pequenos amam seguir atrás dos mais velhos, e, em lições ou brincadeiras, observa-los e imita-los de acordo com sua pequena habilidade. Quanto ao bebê, ele está em êxtase: despojado de seus cobertores, ele chuta e se arrasta, e agarra a grama, ri com sua suave risada infantil e assimila seu pequeno conhecimento das formas e propriedades, de sua própria maneira maravilhosa — vestido em uma roupa de lã, longa e solta, que não é nada ruim para qualquer uso possível.

 

Reproduzido e traduzido do livro original de Charlotte Mason – Home Education, v.1

Traduzido por Arielle Pedrosa

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